🖥️ Simulação de Post: The Demon Inside
Título: Entry #03: Chaves, Caixas e o Som do Vazio
Mood: Claustrofóbico / Solitário
O clique da fechadura soou como um tiro de revólver.
É a primeira vez na minha vida que eu giro uma chave e sei que não há absolutamente ninguém do outro lado da porta. Sem o meu pai lendo processos no escritório. Sem a minha mãe suspirando no ateliê. E, a partir de hoje, sem os caras da OVW.
Eu passei o último ano dividindo um apartamento minúsculo com três novatos. O lugar cheirava a pomada muscular, proteína barata e suor. Era um inferno de barulho. Eles passavam a madrugada gemendo de dor, enrolando gelo nos joelhos estourados e contando vantagem sobre qual garota iam tentar impressionar no próximo show. Eu odiava aquele barulho, mas eu precisava dele. O barulho deles me escondia.
Quando o "Big" Mike voltava mancando com o ombro deslocado, eu tinha que mancar também. Eu tinha que fingir que o cimento me machucava para que eles não percebessem que eu saía das lutas ileso. A dor deles era o meu camuflagem.
Hoje eu assinei o contrato desse muquifo de um quarto só. Joguei meu colchão no chão, do lado de três caixas de papelão. A primeira coisa que tirei da mochila foi a Matrioshka.
Coloquei a boneca no parapeito da janela. A luz de neon do letreiro do posto de gasolina aqui da frente bate nela, pintando a madeira com um brilho doentio.
O silêncio aqui é absoluto.
Eu só escuto o zumbido velho da geladeira.
E é aí que está o problema.
Sem os três brutamontes reclamando de dor, eu começo a ouvir o meu próprio corpo. Eu sinto aquela estática formigando debaixo da pele.
A probabilidade puxando a poeira ao meu redor.
A força que não me deixa quebrar.
Eu queria morar sozinho para ser livre, mas acho que acabei de me trancar na cela junto com a anomalia. Tenho o meu próprio teto. E nunca tive tanto pavor de mim mesmo.
Eu passei o último ano dividindo um apartamento minúsculo com três novatos. O lugar cheirava a pomada muscular, proteína barata e suor. Era um inferno de barulho. Eles passavam a madrugada gemendo de dor, enrolando gelo nos joelhos estourados e contando vantagem sobre qual garota iam tentar impressionar no próximo show. Eu odiava aquele barulho, mas eu precisava dele. O barulho deles me escondia.
Quando o "Big" Mike voltava mancando com o ombro deslocado, eu tinha que mancar também. Eu tinha que fingir que o cimento me machucava para que eles não percebessem que eu saía das lutas ileso. A dor deles era o meu camuflagem.
Hoje eu assinei o contrato desse muquifo de um quarto só. Joguei meu colchão no chão, do lado de três caixas de papelão. A primeira coisa que tirei da mochila foi a Matrioshka.
Coloquei a boneca no parapeito da janela. A luz de neon do letreiro do posto de gasolina aqui da frente bate nela, pintando a madeira com um brilho doentio.
O silêncio aqui é absoluto.
Eu só escuto o zumbido velho da geladeira.
E é aí que está o problema.
Sem os três brutamontes reclamando de dor, eu começo a ouvir o meu próprio corpo. Eu sinto aquela estática formigando debaixo da pele.
A probabilidade puxando a poeira ao meu redor.
A força que não me deixa quebrar.
Eu queria morar sozinho para ser livre, mas acho que acabei de me trancar na cela junto com a anomalia. Tenho o meu próprio teto. E nunca tive tanto pavor de mim mesmo.
Minha mente costuma parecer um comercial da MTV de madrugada.
Sabe aqueles onde a tela pisca, a imagem distorce e tem um ruído de fundo que faz seus dentes doerem?
É assim que a minha mutação soa na minha cabeça quando estou sozinho no apartamento.
Um zumbido elétrico de probabilidade.
Para não enlouquecer com o silêncio do meu quarto, fui até a Ear X-Tacy.
Queria afogar minha estática com a estática de outras pessoas.
Fui direto para as estações de escuta no fundo da loja.
Coloquei aqueles fones gigantes e pesados com a espuma rasgada na orelha.
O CD que estava lá era o novo do Korn. Apertei o Play no volume máximo. Eu precisava que as guitarras fossem mais pesadas que a gravidade. Fechei os olhos e deixei o som de Blind espancar meus tímpanos.
Eu não estava no ringue, não estava apanhando de mentira.
Estava só flutuando no barulho. Foi então que eu senti um toque no ombro.
Eu abri os olhos com o reflexo de quem espera um soco.
Mas não era um brutamontes da OVW.
Era uma garota.
Ela não parecia uma lutadora nem uma das fãs histéricas dos shows.
Usava uma camisa de flanela amarrada na cintura sobre uma camiseta do Nirvana desbotada e tinha uma leve mancha na lateral da mão. Ela apontou para o meu fone de ouvido, sorriu de lado e gritou algo que eu não ouvi. Tirei o fone.
O silêncio da loja voltou de repente. "O que foi?" perguntei, na defensiva.
Ela deu de ombros, sem se intimidar com meu tamanho. "Você tá balançando a cabeça tão forte que o cabo do fone soltou do aparelho, cara. Você tá batendo cabeça no mudo há uns dois minutos. A loja inteira tá olhando." Eu olhei para baixo.
O cabo preto estava caído no chão.
Eu estava tão focado em desligar minha cabeça que não percebi que a música tinha acabado.
Eu fiquei vermelho.
O grande 'Stand Cat', o cara que não sente dor no ringue, morrendo de vergonha no corredor de rock alternativo. Ela riu. Não riu de mim. Riu pra mim. Ela pegou o cabo, plugou no terminal do lado e me passou o fone dela. "Aqui. Ouve isso. Menos gritaria, mais alma. Vai te ajudar a pousar."
Era um disco do Alice in Chains. Acústico. E ela estava certa.
O nome dela é Elise.
Ela não sabe o que é uma No Rules Match.
Ela não liga para cinturões ou para a WWF. E ela, com cheiro de café, foi a primeira pessoa em anos que me fez sentir que eu não precisava estar sempre caindo. Pela primeira vez, eu acho que senti o chão.
Sabe aqueles onde a tela pisca, a imagem distorce e tem um ruído de fundo que faz seus dentes doerem?
É assim que a minha mutação soa na minha cabeça quando estou sozinho no apartamento.
Um zumbido elétrico de probabilidade.
Para não enlouquecer com o silêncio do meu quarto, fui até a Ear X-Tacy.
Queria afogar minha estática com a estática de outras pessoas.
Fui direto para as estações de escuta no fundo da loja.
Coloquei aqueles fones gigantes e pesados com a espuma rasgada na orelha.
O CD que estava lá era o novo do Korn. Apertei o Play no volume máximo. Eu precisava que as guitarras fossem mais pesadas que a gravidade. Fechei os olhos e deixei o som de Blind espancar meus tímpanos.
Eu não estava no ringue, não estava apanhando de mentira.
Estava só flutuando no barulho. Foi então que eu senti um toque no ombro.
Eu abri os olhos com o reflexo de quem espera um soco.
Mas não era um brutamontes da OVW.
Era uma garota.
Ela não parecia uma lutadora nem uma das fãs histéricas dos shows.
Usava uma camisa de flanela amarrada na cintura sobre uma camiseta do Nirvana desbotada e tinha uma leve mancha na lateral da mão. Ela apontou para o meu fone de ouvido, sorriu de lado e gritou algo que eu não ouvi. Tirei o fone.
O silêncio da loja voltou de repente. "O que foi?" perguntei, na defensiva.
Ela deu de ombros, sem se intimidar com meu tamanho. "Você tá balançando a cabeça tão forte que o cabo do fone soltou do aparelho, cara. Você tá batendo cabeça no mudo há uns dois minutos. A loja inteira tá olhando." Eu olhei para baixo.
O cabo preto estava caído no chão.
Eu estava tão focado em desligar minha cabeça que não percebi que a música tinha acabado.
Eu fiquei vermelho.
O grande 'Stand Cat', o cara que não sente dor no ringue, morrendo de vergonha no corredor de rock alternativo. Ela riu. Não riu de mim. Riu pra mim. Ela pegou o cabo, plugou no terminal do lado e me passou o fone dela. "Aqui. Ouve isso. Menos gritaria, mais alma. Vai te ajudar a pousar."
Era um disco do Alice in Chains. Acústico. E ela estava certa.
O nome dela é Elise.
Ela não sabe o que é uma No Rules Match.
Ela não liga para cinturões ou para a WWF. E ela, com cheiro de café, foi a primeira pessoa em anos que me fez sentir que eu não precisava estar sempre caindo. Pela primeira vez, eu acho que senti o chão.

Comentários
Postar um comentário